Gui Christ se consagra fotógrafo de retratos do ano no Sony World Photography Awards
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| Representação de Exu e Pombagira na umbanda |
Por Ana Elizabeth Diniz Especial para O TEMPO
Publicado em 06 de maio de 2025 | 03:00
Filho de Ogum e Iemanjá, Gui Christ, fotógrafo fluminense, acaba de vencer o maior prêmio da fotografia mundial, combatendo o racismo religioso com a série M’Kumba.
Em cerimônia realizada recentemente, em Londres, ele foi consagrado o melhor fotógrafo do ano na categoria Retratos do Sony World Photography Awards 2025, um dos mais importantes concursos do mundo, que recebeu mais de 400 mil imagens enviadas por artistas de mais de 200 países.
O trabalho do fotógrafo revela seu engajamento no combate ao racismo religioso. “‘Kumba’, na língua quicongo, falada na região centro-africana, quer dizer ‘curandeiro’, ‘senhor da palavra’, ‘homem sábio’; e ‘ma’ é ‘coletivo’. Então ‘macumba’ é o encontro de curandeiros, pessoas que reafirmam sua fé em um país em que os praticantes das religiões de matriz afro sofrem um ataque a cada três dias”, comenta Christ.
O ensaio vencedor apresenta uma série de retratos de praticantes de religiões de matriz africana em diversas regiões do Brasil. “Por meio de uma estética que une o simbólico e o documental, as imagens celebram a resiliência e a espiritualidade dessas comunidades diante de séculos de racismo e intolerância religiosa”, diz ele.
Christ é membro de uma comunidade tradicional, Nagô Egbá, e é também praticante de umbanda, dedicando-se há quase seis anos à documentação fotográfica das religiões afro-brasileiras. “Minha motivação cresceu após ter sido vítima de uma tentativa de atropelamento por trajar roupas litúrgicas, episódio que me fez compreender a urgência de transformar essa violência em denúncia visual e afirmação cultural”, enfatiza.
Ele costuma dizer que virou “macumbeiro por causa da fotografia” ou que virou “fotógrafo por causa da macumba”. “Tenho dupla pertença. Na umbanda, há o culto aos ancestrais (influência bantu); no candomblé, temos o culto a um orixá divinizado. Essa dupla pertença e meu processo fotográfico me permitiram entender essa diversidade e desconstruir o racismo”.
E o fotógrafo agradece o prêmio: “Ogunhê! Toda vitória pertence a Ogun. Pertence à cultura, às religiões e ao povo afro-brasileiro. Dedico essa conquista a Èṣù, Ògún, Òṣóòsì, Ọbalúayé, a todos os orixás, inquices, voduns, encantados e entidades ancestrais cultuadas em nossos terreiros. Essa vitória não é apenas minha. É de todos os mais de 4 milhões de africanos trazidos à força ao Brasil, que perderam suas liberdades e tiveram suas espiritualidades combatidas por séculos”.
E emenda dizendo que essa vitória “também é de seus descendentes, que há mais de 400 anos, nos quilombos e nas comunidades de axé, mantêm vivos os legados de seus ancestrais, superando os preconceitos e as violências que o racismo ainda insiste em causar”.